Em livro lançado neste sábado, no MAG Shopping, Camila Mozzini-Alister propõe uma reflexão sobre a presença emocional dos pais e os vínculos que começam a ser construídos ainda na infância.
O celular já não representa apenas lazer. Nele estão o trabalho, as notícias, as relações sociais, os compromissos e quase todas as urgências da vida contemporânea. O problema começa quando essa concentração de interesses transforma o filho em coadjuvante dentro de casa: a criança está próxima, chama pela mãe, mas encontra um olhar permanentemente deslocado para a tela.
É nesse cotidiano que se insere “Larga o celular, eu só quero ficar com vocês”, da jornalista, pesquisadora e escritora Camila Mozzini-Alister. Gaúcha, radicada na Austrália e afetivamente ligada a João Pessoa, onde viveu toda a infância e a adolescência, Camila lança o livro neste sábado (19), no MAG Shopping.
Mais do que discutir quanto tempo as crianças passam conectadas, a obra provoca os adultos a observarem a própria disponibilidade emocional. Uma mãe pode estar sentada ao lado do filho e, ainda assim, permanecer inacessível naquele momento. Para a criança pequena, não existe diferença clara entre uma mensagem profissional e uma conversa nas redes sociais. Ela apenas registra que chamou e não foi atendida.
Na infância, o olhar do adulto funciona como reconhecimento. É por meio da voz, do toque, das expressões e das respostas de quem cuida que a criança começa a compreender o que sente e a desenvolver segurança. A teoria do apego, formulada pelo psiquiatra e psicanalista John Bowlby, mostrou que as primeiras relações ajudam a construir uma espécie de referência emocional sobre si mesma e sobre o mundo: se pode confiar, se será acolhida e se suas necessidades importam.
O psicólogo Edward Tronick tornou essa necessidade visível no conhecido experimento do “rosto imóvel”. Quando a mãe interrompia a interação e deixava de responder emocionalmente, o bebê tentava recuperar seu olhar, intensificava os gestos e, sem obter resposta, demonstrava aflição e retraimento. O celular não reproduz automaticamente aquela experiência, mas o estudo ajuda a compreender o que acontece quando a criança encontra repetidamente um adulto fisicamente próximo e emocionalmente distante.
No dia a dia, a tentativa de recuperar essa conexão pode aparecer como insistência, choro, irritação ou aquilo que os adultos chamam de birra. A ciência utiliza o termo “tecnointerferência” para definir as interrupções provocadas pelos dispositivos nas relações presenciais. Uma pesquisa conduzida por Brandon McDaniel e Jenny Radesky identificou uma dinâmica de mão dupla: o estresse causado por comportamentos difíceis pode levar os pais a buscar refúgio no celular, enquanto a interferência frequente da tecnologia também aparece associada a mais irritação, oposição e retraimento nas crianças.
O maior risco não está em uma mãe responder a uma mensagem ou precisar trabalhar. Está na repetição de uma experiência em que a criança aprende que precisa competir para ser vista. Quando essa indisponibilidade se torna um padrão, pode alcançar a forma como ela constrói sua autoestima, regula as emoções e estabelece vínculos. Mais tarde, isso pode se manifestar na dificuldade de pedir ajuda, confiar, expressar necessidades ou acreditar que encontrará espaço emocional nas relações.
É também aí que aparece o custo para os próprios pais. O filho que durante anos deixou de procurar porque não se sentia escutado pode chegar à vida adulta sem saber compartilhar afetos, conflitos e fragilidades. A distância não surge necessariamente como revolta; às vezes, aparece como silêncio. Os pais podem desejar proximidade quando os filhos crescem e descobrir que a intimidade emocional não se estabelece de uma hora para outra — ela é construída nas pequenas respostas oferecidas ao longo da infância.
Isso não significa responsabilizar exclusivamente a mãe nem exigir disponibilidade permanente. Na perspectiva do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, a criança não precisa de uma mãe perfeita, mas de um cuidado suficientemente estável, capaz também de reconhecer falhas e reconstruir o encontro. O vínculo não depende de atenção absoluta, e sim da existência de momentos nos quais o filho saiba que não precisa disputar com uma tela o direito de ser percebido.
Com formação em Jornalismo, mestrado em Psicologia Social e Institucional e doutorado nas áreas de Comunicação e Artes, Camila pesquisa desde 2008 os efeitos e os afetos produzidos pelas telas e pelas redes sociais. Ao transformar essa inquietação em literatura infantil, a escritora realiza um gesto de cuidado que ultrapassa as páginas do livro e alcança mães, filhos e famílias inteiras.
A iniciativa de Camila merece ser celebrada porque devolve à infância uma pergunta que os adultos nem sempre conseguem ouvir: ainda existe espaço para mim no seu olhar? “Larga o celular, eu só quero ficar com vocês” nasce como um chamado ao afeto, à escuta e à presença. Um convite para que a tecnologia continue fazendo parte da vida, mas jamais coloque em segundo plano a criança que espera apenas um abraço, uma conversa e a certeza de que, para sua mãe, nenhuma notificação será mais importante do que ela.

