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A volta de Ricardo Coutinho é um teste sobre o peso da memória administrativa na política paraibana

A pré-candidatura do ex-governador à Câmara Federal testa se a política de obras, território e participação popular ainda tem força eleitoral em 2026.

A política brasileira, e a paraibana também, tem sido cada vez mais consumida pela pressa das redes, pela disputa de versões e por um debate público frequentemente raso. Em muitos momentos, fala-se mais de performance do que de entrega, mais do gesto do dia do que da construção de um projeto. É nesse cenário que a possível volta de Ricardo Coutinho ao centro da disputa eleitoral ganha um sentido maior do que uma candidatura individual.

Ricardo é um desses personagens que ainda obrigam a política paraibana a discutir gestão. Concorde-se ou não com ele, sua biografia não permite que o debate fique apenas no campo da opinião, da preferência partidária ou da conveniência eleitoral. Sua força vem de uma trajetória administrativa que passou por João Pessoa, alcançou o governo estadual e deixou marcas concretas em diferentes regiões da Paraíba.

O que diferencia Ricardo Coutinho é que uma eventual chegada à Câmara Federal não seria uma estreia no poder. Seria, antes, a tentativa de levar para Brasília uma experiência já testada na prática. Ele foi prefeito da capital, governou o Estado por dois mandatos e construiu uma imagem associada a obras, planejamento, presença no interior e capacidade de formulação política. Num tempo em que muitos candidatos se apresentam apenas como promessa, Ricardo se apresenta, inevitavelmente, como comparação.

A comparação aparece com mais força quando se observa a infraestrutura, a saúde e a participação popular como eixos de governo. Programas rodoviários, equipamentos públicos, obras estruturantes e experiências como o Orçamento Democrático ajudam a explicar por que sua lembrança política permanece viva. Mais do que uma lista de realizações, há ali uma forma de governar: olhar para o território, ouvir demandas sociais e tentar transformá-las em política pública e presença administrativa.

Esse modo de governar, de alguma maneira, ultrapassou a própria biografia de Ricardo e passou a fazer parte de uma referência administrativa na Paraíba. A trajetória de João Azevêdo, que atuou em áreas estratégicas e depois governou o Estado, também dialoga com esse ciclo marcado por obras, planejamento e presença territorial. Hoje, ainda que Ricardo, João e Lucas Ribeiro estejam em caminhos políticos próprios, é difícil analisar a política paraibana recente sem perceber uma linha de continuidade institucional entre esses governos. Não como submissão pessoal de um a outro, mas como permanência de uma forma de gestão que colocou a entrega concreta no centro da avaliação pública.

Ricardo, naturalmente, nunca foi uma figura política morna. Seu estilo forte, muitas vezes duro, sempre produziu apoios intensos e resistências igualmente intensas. Talvez esteja aí uma das razões de sua permanência no debate público. Ele não é um personagem indiferente. Mesmo fora do governo, continua sendo uma referência para quem deseja discutir a Paraíba pelo ângulo da gestão, da obra pública e da presença do Estado onde ele costuma ser mais cobrado.

Por isso, sua pré-candidatura à Câmara Federal em 2026 carrega uma pergunta maior do que a disputa proporcional: um ex-governador com memória de entrega ainda consegue converter legado administrativo em voto? A resposta dependerá das urnas, mas a pergunta já revela a singularidade do caso. Ricardo Coutinho não volta ao debate público apenas como promessa. Volta como comparação. E, numa política cada vez mais feita de discursos rápidos, talvez esse seja seu maior trunfo: obrigar a Paraíba a comparar palavras com obras.

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