O Brasil enfrenta um cenário econômico desafiador para estabilizar sua dívida pública, exigindo esforços que, segundo especialistas, superam as medidas de ajuste fiscal implementadas pelo governo de Javier Milei na Argentina. A análise foi apresentada por economistas durante evento recente, destacando a necessidade de uma mudança estrutural significativa no superávit primário do país.
Para estabilizar a dívida brasileira com os atuais juros reais de 7,5% ao ano, o país precisaria elevar o superávit primário em 5 pontos percentuais em relação ao nível atual. Esse ajuste seria superior ao alcançado pelo governo argentino, que promoveu cortes severos nos gastos públicos desde o final de 2023. O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, argumenta que o custo dos juros elevados está diretamente atrelado à questão fiscal, e não apenas à política monetária, o que impacta o consumo e o valor de mercado das empresas.
O debate aponta que, caso a taxa de juros real retorne ao patamar histórico de 4% a 4,5%, o esforço fiscal necessário seria drasticamente reduzido para cerca de 1,5% do PIB, tornando a meta mais alcançável. Especialistas ressaltam que a persistência de juros altos por um longo período representa um risco para a economia, podendo ser contornada após as eleições através de uma maior previsibilidade e credibilidade nas contas públicas, ainda que o caminho mais provável envolva aumento de impostos.
Apesar dos desafios, o economista-chefe do Itaú, Diogo Guillen, pondera que o ajuste fiscal não deve ser visto necessariamente como um fator recessivo. Segundo o especialista, o foco na credibilidade das contas públicas pode derrubar a percepção de risco, criando um ciclo positivo para investimentos. O principal obstáculo segue sendo a rigidez do orçamento brasileiro, que possui um elevado volume de despesas obrigatórias de difícil redução.

