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Liderança política não se fabrica

Entre cálculos eleitorais e miopia política, partidos têm apostado em lideranças fabricadas que raramente resistem ao teste da realidade. Liderança política não se improvisa nem se fabrica por conveniência eleitoral.

Ano político é sempre terreno fértil para a intensificação da polarização. Em meio às divergências ideológicas e às diferentes bandeiras levantadas por grupos e partidos, uma questão deveria estar no centro das decisões estratégicas: a escolha de quem vai encabeçar uma chapa majoritária. Esse processo não pode ser conduzido com miopia política nem por cálculos imediatistas. Pensar liderança exige densidade política, capacidade de articulação e potencial para construir alianças estratégicas rumo à vitória.

Traçar o perfil de um líder político nos leva inevitavelmente a revisitar a história. Nomes como Nelson Mandela, Ulysses Guimarães, Getúlio Vargas e Winston Churchill não se tornaram referências por acaso. Cada um, em seu tempo e em seu contexto, foi capaz de mobilizar sociedades, enfrentar adversidades e conduzir projetos coletivos que marcaram suas nações. A própria Paraíba, em diferentes momentos de sua história política, também produziu lideranças que se afirmaram pela força do diálogo, pela capacidade de agregar e pela visão de futuro.

Entretanto, diante da atual corrida eleitoral, pouco ou quase nada se discute sobre características fundamentais para o êxito de um projeto político. A liderança verdadeira não nasce apenas da conveniência eleitoral. Ela se constrói na capacidade de inspirar pessoas, reunir forças distintas e conduzir projetos coletivos mesmo quando o cenário é adverso.

É nesse ponto que surge um evidente contrassenso na política contemporânea. Nos últimos anos, tornou-se recorrente a escolha de líderes fabricados, figuras que até então eram desconhecidas do grande público e que passam a encabeçar chapas por razões circunstanciais. Em muitos casos, são escolhidos justamente por não apresentarem índices de rejeição ou por se encaixarem em arranjos partidários de ocasião.

Esse modelo, que mais se parece com uma linha de produção política, tem produzido efeitos colaterais cada vez mais visíveis. Em inúmeros casos, o processo tem se voltado contra o próprio feiticeiro. O líder fabricado, convencido da importância que lhe foi atribuída no período eleitoral, passa a acreditar que possui uma densidade política que, na verdade, foi construída artificialmente por outros.

Passado o processo eleitoral, o fenômeno se repete. Não são poucos os casos em que candidatos derrotados passam a agir como se os votos obtidos fossem patrimônio exclusivamente pessoal. Esquecem que grande parte desse capital político foi resultado da força de lideranças que os apoiaram. A partir daí começam as negociações de passe, os rearranjos e as tentativas de reposicionamento nas disputas seguintes, seja para governador, senador ou para cargos legislativos.

Essa reflexão não é uma crítica isolada, mas uma provocação necessária. O imediatismo e a falta de planejamento estratégico têm levado partidos e grupos políticos a uma espécie de miopia política coletiva. O resultado aparece nas urnas e na representação institucional: partidos fragilizados, projetos descontinuados e ausência de lideranças sólidas nas assembleias legislativas, na Câmara Federal e no Senado.

Lideranças verdadeiras não surgem da noite para o dia nem podem ser produzidas em série. Lideranças se constroem no tempo, na experiência, na capacidade de ouvir, dialogar e assumir responsabilidades públicas. Líderes fabricados em linha de produção não se põem de pé. Mais cedo ou mais tarde, a realidade política cobra aquilo que apenas a trajetória, a legitimidade e a confiança popular são capazes de construir.

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