Início Brasil Maneco Vive: O afeto como a identidade permanente da dramaturgia brasileira

Maneco Vive: O afeto como a identidade permanente da dramaturgia brasileira

Manoel Carlos, o eterno Maneco, não deixou apenas novelas memoráveis; deixou um modo de contar o Brasil a partir do sentimento, do pertencimento e da coragem de tocar feridas abertas da sociedade com delicadeza, profundidade e humanidade. Sua partida não encerra esse estilo, ao contrário, o consagra como patrimônio afetivo da dramaturgia nacional.

O que Maneco imprimiu na teledramaturgia brasileira segue vivo na obra de autores contemporâneos que compreenderam que a novela é, antes de tudo, um espaço legítimo de escuta social, reflexão coletiva e afeto compartilhado. Nesse cenário, nomes como Manuela Dias e Lícia Manzo ocupam lugar de destaque ao preservarem, cada uma a seu modo, a essência da obra aberta, conectada ao cotidiano, às dores, às contradições e às esperanças do Brasil real.

Em Amor de Mãe, Manuela Dias resgatou a força da maternidade como eixo dramático sem idealizações fáceis, expondo desigualdades sociais, violência urbana, abandono, perdas e escolhas morais complexas, sempre priorizando o humano antes do espetáculo. Já Lícia Manzo, em A Vida da Gente e Sete Vidas, reafirmou a potência do silêncio, do diálogo íntimo e da construção psicológica dos personagens, trazendo à tona conflitos familiares, afetivos e existenciais com sensibilidade rara, numa dramaturgia que respeita o tempo da emoção e a inteligência do público.

Esses autores não replicam Manoel Carlos e nem precisam. O que preservam é o essencial, o compromisso com o pertencimento brasileiro, com personagens que poderiam ser nossos vizinhos, amigos ou nós mesmos. Assim como Maneco fez em Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas e Páginas da Vida, a nova geração compreende que ricos, pobres e classe média compartilham dores profundas, encontros e desencontros, amores possíveis e impossíveis, e que temas como violência contra a mulher, preconceito, doença, inclusão e ética seguem atuais porque ainda não foram superados.

O estilo Maneco permanece não como fórmula, mas como herança ética e estética, presente na recusa ao maniqueísmo, no lirismo sem exagero, no romantismo que não mascara a realidade, na trilha sonora que embala memórias coletivas e na convicção de que a televisão pode ser instrumento de empatia, consciência e transformação social. Manoel Carlos foi e continua sendo um autor que escreveu para o coração sem jamais abandonar a responsabilidade de dialogar com o seu tempo. Seu legado não morreu com ele. Vive nas histórias que ainda ousam olhar para o Brasil com verdade, sensibilidade e amor.

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