Mulheres não precisam de salvadores, mas de parceiros que respeitem seu protagonismo e demonstrem compromisso quando as câmeras estão desligadas.
Em toda campanha eleitoral, há políticos que parecem descobrir subitamente a existência das mulheres. Passam a falar de respeito, proteção, igualdade e protagonismo. Exibem esposas, filhas e mães como credenciais afetivas e tentam transformar vínculos familiares em prova de compromisso público.
Mas ter mulheres na família não faz de ninguém defensor dos direitos femininos. A pergunta precisa ser outra: o que esse político realizou pelas mulheres durante sua trajetória? Como votou? Que projetos apresentou? Que recursos destinou? Quais políticas públicas defendeu quando não havia eleição, palanque ou câmera por perto?
A ciência política diferencia presença simbólica de representação substantiva. A primeira coloca a mulher na fotografia, no discurso ou na propaganda. A segunda transforma suas necessidades em decisões, orçamento, leis e políticas públicas. É nessa distância entre parecer e fazer que o oportunismo eleitoral se revela.
As mulheres brasileiras não receberam espaço como concessão generosa dos homens. Cada direito foi conquistado por meio de enfrentamento, organização e coragem. Nísia Floresta desafiou, ainda no século XIX, a ideia de que educação e pensamento não pertenciam às mulheres. Bertha Lutz foi decisiva na luta pelo voto feminino, incorporado ao Código Eleitoral de 1932. Antonieta de Barros, mulher negra, jornalista e educadora, rompeu barreiras ao chegar ao Parlamento. Margarida Maria Alves pagou com a própria vida pela defesa dos trabalhadores rurais e da dignidade humana.
Essas mulheres não lutaram para que, quase um século depois da conquista do voto, outras fossem utilizadas como personagens auxiliares na construção da imagem masculina. Lutaram para que tivéssemos voz, discernimento e poder de decisão.
Nas eleições de 2026, as mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro, mais de 83,8 milhões de votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Entretanto, ocupam cerca de 18% das vagas do Congresso Nacional. Somos maioria diante das urnas e ainda minoria nos espaços em que as decisões são tomadas.
Essa contradição ajuda a explicar por que o voto feminino se tornou tão cobiçado. O problema não está em um homem defender os direitos das mulheres. Homens podem e devem participar dessa luta. O que não se pode aceitar é a apropriação eleitoral de uma causa que nunca esteve presente em sua vida pública.
Compromisso não nasce durante a campanha. Ele deixa rastros. Está na defesa de creches, no enfrentamento à violência, na igualdade salarial, na saúde feminina, no apoio à autonomia econômica e no combate ao assédio e à violência política. Está também na disposição de dividir poder e abrir espaços reais para que mulheres participem das decisões, não apenas das peças publicitárias.
A própria ONU Mulheres defende uma participação substantiva e igualitária, na qual as mulheres não sejam apenas mencionadas, mas possam liderar e decidir os rumos da agenda pública.
As mulheres são protagonistas da própria história. Não precisam de políticos que se apresentem como heróis, protetores ou responsáveis por conceder uma força que elas já possuem. O apoio masculino é legítimo e necessário quando contribui para remover barreiras, garantir direitos e ampliar espaços. Não quando tenta substituir a voz feminina ou assumir a autoria de conquistas construídas pelas próprias mulheres.
Existe uma diferença profunda entre parceria e tutela. O parceiro caminha ao lado, escuta, respeita e ajuda a criar condições para que a mulher exerça plenamente sua autonomia. O falso salvador ocupa o centro da narrativa, transforma a causa feminina em vitrine e sugere que, sem sua presença, as mulheres não conseguiriam avançar.
Não precisamos de homens que protagonizem a nossa luta por nós. Precisamos de aliados que compreendam que apoiar também significa não tomar para si o lugar de quem sempre enfrentou as consequências da desigualdade. O verdadeiro aliado não tenta ser o herói da história. Ele reconhece o protagonismo das mulheres e trabalha para que esse protagonismo tenha espaço, voz e poder de decisão.
Apresentar esposa ou filha durante uma campanha pode humanizar um candidato, mas não substitui uma biografia política. Nenhuma mulher deve servir como avalista de um discurso que a trajetória do próprio candidato não confirma.
Isso não significa negar a importância dos homens que assumem essa luta com legitimidade. Há políticos que, ao longo da vida pública, defenderam direitos, abriram espaços, promoveram mulheres e transformaram esse compromisso em políticas concretas. Esses homens são aliados, têm o nosso reconhecimento e merecem o nosso apoio.
A defesa das mulheres não precisa ser exclusiva das mulheres. Precisa ser verdadeira. O que separa a aliança do oportunismo é a coerência entre discurso e prática, especialmente quando defender nossos direitos exige coragem, enfrentamento e decisão política.
Nós sabemos fazer essa distinção. Sabemos reconhecer quem esteve ao nosso lado antes que o voto feminino se tornasse argumento de campanha. Também sabemos identificar quem tenta vestir, às pressas, uma causa que nunca fez parte de sua trajetória.
Nosso voto não pertence a quem melhor encena proximidade, mas a quem demonstra compromisso. Porque não é a fotografia ao lado de uma mulher que revela um aliado. É a trajetória construída quando as câmeras estão desligadas.

