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ONDE CAMPINA GUARDA O TEMPO

Entre tradição e contemporaneidade, o Instituto Histórico de Campina Grande preserva documentos, personagens e histórias que ajudam a cidade a compreender de onde veio e para onde caminha.

Hoje, escrevo especialmente para você que acredita que uma cidade não é feita apenas de ruas, prédios e avenidas. Uma cidade também é feita das histórias que guarda, das pessoas que passaram por ela, dos afetos que ficaram e das memórias que resistem ao tempo.

E quero começar esta nossa conversa com Cora Coralina, porque Cora tinha esse jeito quase simples de dizer coisas imensas:

“O que vale na vida não é o ponto de partida, e sim a caminhada.”

Então, vamos falar de caminhada. Vamos falar de Campina Grande.

A Rainha da Borborema talvez tenha aprendido cedo que tradição e contemporaneidade não precisam disputar espaço. Elas podem caminhar juntas.

A cidade que fez história com o algodão tornou-se referência em universidades, conhecimento, tecnologia e inovação, sem abandonar a sanfona, o forró, a feira, os costumes e aquele sentimento de pertencimento que o campinense carrega quase como sobrenome.

O Maior São João do Mundo talvez seja a expressão mais visível dessa convivência. Uma tradição que não ficou parada no tempo. Cresceu, incorporou novas linguagens, atravessou fronteiras e projetou Campina para muito além da Borborema.

Mas permita-me uma pergunta: quem cuida das histórias que não cabem nos grandes eventos?

Quem guarda os documentos, as fotografias, os livros, os personagens e aqueles pequenos acontecimentos que, aparentemente comuns, ajudaram a construir a personalidade de uma cidade inteira?

É aqui que quero lhe apresentar, ou talvez reapresentar, duas pessoas: Ida Steinmüller e Vanderley de Brito.

Os dois escolheram dedicar parte importante de suas vidas a cuidar da memória de Campina Grande.

E isso é muito maior do que guardar o passado.

Ida, administradora e presidente de honra do Instituto Histórico de Campina Grande, e Vanderley, historiador, arqueólogo e atual presidente, estão no centro de uma história de persistência que atravessa gerações.

O Instituto nasceu originalmente em 1948, pelas mãos de intelectuais como Elpídio Josué de Almeida, Hortêncio Ribeiro, João Tavares e William Tejo. Depois de diferentes momentos em sua trajetória, ganhou novo fôlego em 2012, quando foi refundado e voltou a ocupar seu lugar na preservação da memória campinense.

A Casa Elpídio de Almeida ressurgiu com uma missão que parece simples até percebermos a dimensão dela: preservar, pesquisar e compartilhar a memória histórica e cultural de Campina Grande.

E memória, aqui, não significa empilhar papéis antigos.

Significa pesquisar, organizar acervos, produzir conhecimento, publicar livros, recuperar personagens e permitir que novas gerações compreendam a cidade que receberam.

José Saramago nos deixou uma reflexão que parece conversar diretamente com essa missão:

“Somos a memória que temos; sem memória, não saberíamos quem somos.”

Talvez esteja aí uma boa maneira de compreender o trabalho de Ida, Vanderley e de todos os que colaboram com o Instituto. Eles ajudam Campina a não esquecer quem é.

Há ainda uma delicadeza especial nessa construção. A história que merece ser preservada não é apenas aquela protagonizada por governadores, prefeitos, empresários ou personalidades que tiveram seus nomes eternizados em ruas e monumentos.

Há também o homem e a mulher comuns. Os costumes, os lugares, as famílias, as conversas, os acontecimentos aparentemente pequenos que, juntos, formam a memória coletiva.

Porque cidades também são construídas por quem nunca ganhou estátua.

São feitas por quem abriu uma pequena loja, ensinou numa escola, trabalhou na feira, criou os filhos, construiu casas, frequentou os antigos cinemas, dançou forró, produziu cultura e deixou, mesmo sem perceber, alguma marca pelo caminho.

É por isso que preservar memória não pode depender apenas da dedicação de quem decidiu abraçar essa missão.

E aqui há um gesto recente que merece reconhecimento.

Em maio deste ano, o governo anunciou um conjunto de investimentos destinados a iniciativas culturais de Campina Grande. Entre eles, um Termo de Fomento de R$ 100 mil para o Instituto, destinado ao tratamento de seu arquivo.

A princípio, pode soar apenas como mais um número entre tantos investimentos públicos. Mas, na verdade, é um gesto de reconhecimento à memória de uma cidade.

Quando o poder público compreende que um arquivo histórico merece investimento, reconhece que cultura também é documento, pesquisa, identidade e memória.

Nesse sentido, a iniciativa do Governo da Paraíba demonstra sensibilidade para algo cujo resultado talvez não seja medido apenas no presente. Porque recuperar um documento hoje pode significar entregar uma parte da história de Campina a alguém que ainda nem nasceu.

E talvez seja essa a beleza maior do trabalho realizado por Ida Steinmüller e Vanderley de Brito.

Eles trabalham com o passado, mas o destinatário final também é o futuro.

E é exatamente nesse encontro entre o que fomos, o que somos e aquilo que ainda estamos construindo que a poesia de Cora Coralina parece encontrar seu lugar outra vez:

“O que vale na vida não é o ponto de partida, e sim a caminhada.”

Campina Grande continua caminhando.

Caminha quando produz tecnologia e conhecimento, quando abre espaço para o novo, quando transforma tradição em contemporaneidade e quando recebe milhares de pessoas para celebrar o seu São João.

Mas também caminha quando alguém abre uma caixa antiga, recupera um documento, identifica uma fotografia, escuta uma história, escreve um livro ou simplesmente decide que determinada memória não pode desaparecer.

Há cidades que crescem apagando seus rastros.

Campina pode escolher, e vem escolhendo, outro caminho: crescer sabendo de onde veio.

E que bonito é perceber que, ao preservar suas memórias, a cidade também semeia futuro.

Talvez seja exatamente isso que Ida Steinmüller, Vanderley de Brito e todos os que fazem o Instituto Histórico de Campina Grande realizem todos os dias:

Semeiam lembranças para que as próximas gerações colham identidade, pertencimento e orgulho de ser campinense.

Porque preservar a memória não significa viver olhando para trás.

É levar consigo, na caminhada, aquilo que o tempo não deveria apagar.

E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de uma cidade continuar jovem.

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